Sub-título:
- ensaio sobre a cegueira
Prefácio:
«Agradecemos muito ao Presidente de Estarreja pelas coisas que faz por nós.» Tricana sénior, bastante afectuosa, munícipe em Estarreja, a bordo de um barco moliceiro, ao segundo 38 do vídeo aqui publicado a 17/10/11
Não está aqui em causa se o "Presidente de Estarreja" é ou não uma boa pessoa. Acredito que seja. Aliás, qualquer individuo oriundo de Pardilhó, terra dos reacendimentos diários, reúne todos os predicados para ser um samaritano em potência. Basta lembrar aquele autarca 'oscilante' que rouba lugares às outras freguesias para meter os seus nativos. O mais fascinante na declaração desta sénior é a evidente constatação de que a simbiose Presidente/Munícipe é das coisas mais poderosas em politica, especialmente na politica local. Atenção, nunca menosprezar esta poligamia assumida entre dezenas de seniores ávidas de aproveitar a vida enquanto podem e o homem que pode saciar-lhes a libido, matar o desejo e apaparicar-lhes o âmago, o "Presidente de Estarreja" (não confundir, por favor, com o Presidente 'do' Estarreja). De nada vale um candidato a uma Câmara ou a uma Junta possuir uma visão arrojada e uns projectos fabulosos, se não for carismático e cair no goto dos eleitores, especialmente dos eleitores seniores pois são estes que votam e decidem eleições. Penso até que para as eleições serem mais 'justas' devia adoptar-se o método praticado nas eleições para os clubes de futebol onde os anos de filiação dão mais votos, mas no caso das eleições para as autarquias fazia-se ao contrário: a terceira idade teria direito apenas a um (1) voto, a segunda idade, os adulto activos, teriam direito a 5 (cinco) e a primeira idade, os recém recenseados, teriam 10 (votos) para enfiar na caixa negra. Democratizava-se a coisa e criaria muito mais suspense nos resultados durante aquele espaço horário que vai das 19 às 20h.
É que o eleitor sénior vota por instinto, por reflexão inata. O eleitor sénior está a borrifar-se para o facto do EcoParque estar cheio, vazio ou a meio gás, não quer saber se a ponte peidonal (não é erro da gráfica, é mesmo o nome da ponte) sobre o Antuã pode ser feita por metade do preço ou se alguém vai encher os bolsos com isso e também não liga nenhuma aos múltiplos prémios familiares com que a Câmara é distinguida e ao facto da parede do edifício camarário estar forrada com primos, sobrinhos, noras e enteadas até ao tecto, sugando dezenas de milhares de euros todos os meses para uma produtividade abaixo de zero. O eleitor sénior não perde tempo com as noticias que dão conta de Estarreja ter perdido mais de um milhar de cabeças de gado humano no ultimo decénio, não quer compreender porque é que os jovens casais optam por ir pagar contribuição autárquica para outro município, mesmo que o IMI seja mais barato em Estarreja (o sénior sente-se bem em Estarreja) e não cora de vergonha "perante o estado ruinoso do país", conforme escreveu Abel Cunha. O sénior já labutou a vida inteira e agora apenas pretende a sua parte do quinhão, independentemente se vai haver que chegue para as gerações vindouras. O sénior é um voraz carniceiro que come a carne e ainda chupa os ossos. O eleitor sénior vive o dia de hoje (lá está, o tal 'carpe diem' em versão anciã) e só depois viverá o dia depois de amanhã (não é erro da gráfica, é mesmo o nome do filme). O eleitor sénior preocupa-se unicamente consigo e com as datas das próximas 'matinés' dançantes, os seus filhos estão criados, os netos são responsabilidade dos filhos e o horizonte do sénior cinge-se a curtos e sucessivos períodos de 12 meses. Daí a mítica expressão "para o ano, se ainda cá estiver e o Senhor Deus quiser, hei-de ir novamente ao 'malafaia'." E isto não vale apenas para para a ida aos 'malafaias', também conta para o Natal, Páscoa, aniversário, festa religiosa da localidade, etc. O eleitor sénior tem como objectivo viver sempre mais um ano e sendo assim, esses votos não se conquistam com 'lagoas', 'cidades dos carnavais', 'incubadoras de empresas' e projectos lindos que nunca ninguém sabe se virão a ser construídos. Estes votos conquistam-se com mimo. Apenas e só, mimo.
E o Presidente José Eduardo de Matos é grande nesta matéria e é o expoente máximo do afecto, da solidariedade e do altruísmo para com o reformado municipal, incluindo o reformado cuja pensão é bem superior ao salário da maior parte da classe trabalhadora que ainda resta por cá.
Ele, "o Presidente", chega a um ajuntamento sénior e só precisa de dizer: "minha senhora, aguente esses ossos que daqui a 2 meses temos o festival sénior."
E mesmo que a sénior responda do jeito habitual, "ó Sr. Presidente eu tenho andado tão mal da minha coluna que só espero lá chegar", o Presidente já tem a ementa emenda preparada: "você deixe-se disso, não só vai lá chegar como vai chegar ainda mais longe, está à porta o passeio a Viana."
A munícipe devolve, "ó Sr. Presidente, o seu instinto protector tira-me do sério, a sua graciosidade dá-me arrepios e a sua generosidade infinita obriga-me a ir comprar mais velinhas para meter a queimar em frente ao seu retrato que tenho na minha mesinha de cabeceira."
Isto é carisma, meus senhores!!!
Isaltino Morais, Alberto João da Madeira, Valentim Loureiro e tantos outros, ganham eleições porque possuem carisma sobre esta franja etária de eleitores e não venham cá com histórias de electrodomésticos, boleias para as mesas de voto, asfaltamento apressado das soleiras das portas dos eleitores indecisos e, no caso de Estarreja, limitação intelectual de quem vota, vulgo, eleitores burros, que isso são desculpas esfarrapadas por parte de quem perde. Se o candidato der aos eleitores seniores aquilo que eles querem, estes últimos vão retribuir na mesma medida: "diz-me quantos bailaricos tens para mim e dar-te-ei o(s) meu(s) voto(s)".
Para os munícipes seniores, votar no candidato ideal é uma questão de honra, é premiar a pessoa que mais os mimoseia. Quando se pergunta a uma criança se gosta mais do pai ou da mãe, normalmente esta responde que gosta dos dois. Nos seniores é radicalmente diferente e não há cá diplomacias, pois eles sabem perfeitamente quem é que lhes dá o paternalismo que já não possuem, uns, ou nunca possuíram, outros. Para o eleitor sénior, em cada dois candidatos, um representa sempre o "good side of the force" e o outro é forçosamente o enviado das forças das trevas, que vem exterminar todos aqueles que já ultrapassaram o prazo de validade, extinguir a raça jurássica, acabar com a carne marinhoa, com as espetadas de 'barrigas' e com o caldo verde, com os bailes, festivais, passeios, ginástica, aulas, ranchos e demais folclores e trazer para cá o 'rock n´roll', a 'ganza', as 'poucas-vergonhas' e o 'putedo'. Tudo isto pode ser compilado numa única denominação, a "droga", que é o termo predominantemente utilizado pelas pessoas de idade quando temem que a conjuntura politica e social a que estão habituados possa eventualmente vir a ser alterada por um candidato pára-quedista e pouco experimentado nestes assuntos do primado sénior. E estas pessoas avançadas na idade já não estão com idade para mudar, apenas para gozar. Isto é muito importante de reter para qualquer candidato que pretenda ocupar o lugar "do grande Presidente", seja esse candidato o novato pouco rodado lá do partido ou trate-se do 'tirano' oriundo da oposição.
Voto nupcial ---> voto político (votos distintos, tantas semelhanças)
Posto isto, separando as águas (não as da lagoa Mendonça) e focando agora a análise nas eleitoras seniores - pois são elas as mais desbocadas no bom sentido, ou seja, não revelam qualquer prurido em dizer aos microfones quem é o bom candidato, enquanto os seniores machos são mais reservados e preferem exprimir-se através do voto no tal 'bom' - podemos racionalizar que, para a eleitora sénior, votar no candidato seguro (não confundir com o António) é como perder a virgindade com o homem certo, o escolhido: "the chosen one". Elas ainda são do tempo em que guardavam a sua castidade até encontrar o parceiro ideal, aquele que iria proporcionar-lhes a harmonia e o bem-estar, trabalhando para elas de sol a sol e trazendo para casa, a cada final do mês, um futuro feli$ (não confundir com o 'slogan'). E mesmo traída, espancada e maltratada, como acontecia não poucas vezes, esse parceiro tinha que ficar para sempre pois o voto nupcial tinha sido assumido e por uma questão de imposição social e religiosa, não podia ser anulado.
Com o voto político passa-se a mesma coisa. Uma munícipe sénior não dá o seu voto ao primeiro que aparece. A eleitora sénior passou toda uma juventude sem poder dar o seu voto a ninguém e agora que pode fazê-lo, ao contrário das munícipes mais jovens - que ora metem o voto neste, ora vão metê-lo ali no outro - é fiel, sabe o valor do voto, pois teve que escondê-lo durante décadas de ditadura sexual política e vai dá-lo de forma carinhosa àquele que lhe pareça ser o candidato mais adequado à sua esperança de vida de curto prazo. Pelo menos enquanto esse candidato estiver autorizado pela lei a concorrer. E mesmo traída, espancada e maltratada, como acontece não poucas vezes - reparem nos "ossos em vez da carne" do 'malafaia', reparem no caldo verde com uma única rodela de chouriça, que em vez de saciar a pessoa apenas "arremedeia" - esse voto político fica para sempre e por uma questão de imposição social pessoal e às vezes religiosa, não pode ser anulado. A menos que a sénior seja míope e tenha colocado a cruz fora do quadrado. Nestes (raros) casos não há nada a fazer, o que é de lamentar. Andou um candidato a 'rodar' com as seniores durante o baile, para... nada!!??
Pois bem, para ir terminando esta crónica, resta escrever que os próximos fulanos que vão concorrer à Câmara Municipal e possuem a missão de fazer esquecer "o ilustre Presidente" junto da camada sénior, têm uma tarefa que não é fácil. Eu diria mais, têm uma tarefa difícil. Aliás, não é fácil nem é pouco difícil, antes pelo contrário. Nem sei se lhe deva chamar uma verdadeira tarefa hercúleana (em linguagem sénior "herculano) ou uma dura 'task force' eduardiana (em linguagem sénior "Deus").
Regra principal para quem alimenta a esperança de chegar futuramente a Presidente da municipalidade sexagenária e superior: nunca rebaixar ou ridicularizar o actual trabalho que vem sendo realizado junto dos seniores pelo "filantropo Presidente". Isso seria um tiro no pé e os seniores nunca esquecem aqueles que atacam quem lhes faz bem. Há que encarar os seniores sem rodeios, gabar o espírito samaritanista do(s) anterior(es) mandato(s) e prometer-lhes que é para continuar. Se não houver dinheiro para continuar com estas campanhas de turismo sénior, faça-se a coisa por metade do preço e por €10.000 monta-se um estendal permanente no meio da Praça e organizam-se 'malafaias' periódicos. Até se pode pedir ao Banco Alimentar contra a Fome que envie para cá as sobras de comida que não é enviada para os carenciados do rendimento mínimo. Agora, se um qualquer aspirante à Câmara vem para a praça pública anunciar medidas reformistas de corte com esta politica de apoio e subvenção ao orgasmo sénior, será o equivalente ao tipo dar um tiro no próprio tendão rotuliano e isso pode não dar muito jeito na hora de escapar aos motins seniores que certamente irão levantar-se, especialmente sabendo-se que grande parte desses seniores frequentaram as aulas de defesa pessoal patrocinadas pela Câmara, onde aprenderam artes marciais tão distintas como 'taekwondo', luta greco-romana e ataque com salsicha e guarda-chuva. Só faltou a estes seniores aprenderem a defender-se dos 'agentes' da segurança social que 'trabalham' os clientes idosos ao domicilio, mas isso era capaz de encarecer o custo da mensalidade das aulas. Ficaram apenas as lições práticas e ignoraram-se as teóricas. Ficaram fisicamente bem exercitados mas mentalmente continuaram estúpidos. Daí a escolha do sub-título deste almanaque: "ensaio sobre a cegueira."
Epílogo: José Eduardo de Matos ficará gravado nas placas acrílicas da história concelhia como o Presidente de todos os seniores, desde o sénior que se move com recurso a canadianas até ao sénior que em vez do Canadá preferiu o Luxemburgo (ora aqui está uma das piores tentativas de piada de sempre) e só cá vem esporadicamente para dar uma de 'azeiteiro' e fazer uma visita propositada ao estonteante Minho vinhateiro.
José Eduardo de Matos colocou a fasquia do movimento veterano estarrejense num patamar inacessível e quase divino e é um homem que desperta apenas três sentimentos na camada sénior municipal: ou gostam dele, ou adoram ou amam! O legado sénior de Eduardo de Matos é muito pessoal e praticamente intransmissível. O sucessor pode fazer igual? Até pode, mas o jubilo sénior jamais será a mesma coisa. Quem com seniores anda, com seniores matará! Quem com os seniores carrega, com os seniores ganhará!
Nunca se esqueçam das sábias palavras de Woody Allen: "a realidade é dura, mas ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife..." Os aspirantes à chefia governativa da Câmara que experimentem tirar o bife aos sexa, septua, octo e nonagenários do eleitorado local e vão ver com que percentagem de votos se constrói uma derrota.