Portugal está como está - não só, mas também - porque damos sempre primazia ao que é importado, não só a nível de calçado, vestuário, música e cinema, como igualmente em matéria de géneros alimentares, nomeadamente a 'fruta' importada.
Reparem que não temos pejo em consumir laranjas do Algarve (é estrangeiro), bananas da Madeira (ainda mais estrangeiro é) e 'pêgas' da Roménia, só para dar um breve e esclarecedor exemplo.
Então, ao nível da 'frutaria', é uma coisa por demais evidente e isso encontra-se bem patente na actual "guerra de prostitutas" que assola a Estrada Nacional nº 1 de Albergaria-a-Velha (NDR: noticia do Diário de Aveiro 15/01/11).
A disputa territorial está assumir contornos preocupantes e conta-se em meia dúzia de palavras. As 'Velhas' - que tal como o nome indica são as anciãs que se prostituem em Albergaria-a-Velha - estão a sofrer na pele a concorrência das 'Novas', que - não bastando o facto de serem estrangeiras do estrangeiro - não se contentam em prostituir-se na zona delas - naturalmente, Albergaria-a-Nova - e vêm também oferecer os seus serviços para o lado de Albergaria-a-Velha, local onde as 'Velhas' se prostituem há mais de duas décadas e possuem (possuíam?) uma carteira de clientes fidelizada, nomeadamente ao nível dos camionistas 'transibéricos', taxistas do eixo Porto-Coimbra e da maior parte da 'trolharia' da região centro.
Ora bem, o caso é mais grave do que aquilo que se julga e ainda não vi a Igreja Católica emitir um comunicado acerca desta lamentável situação, similar àquele comunicado de apelo ao voto urgente em Cavaco Silva. Parecendo que não, isto é bem mais importante do que qualquer eleição presidencial, pois trata-se simplesmente de defender os valores e o produto nacional; trata-se de defender as incansáveis 'Velhas' trabalhadoras das 'Novas' oportunistas; trata-se de defender o €uro português do RON romeno. Se Salazar cá estivesse, seria assim que procedia.
Vamos então a factos:
Maria de Fátima, prostituta, 50 anos - "sempre existiu um código respeitado por todas mas agora tudo mudou. Há anos que estou aqui o dia todo, tenho que pagar o bilhete de comboio mais o do autocarro... elas (as Novas) chegaram e dizem que não saem daqui... a verdade é que, chegado o fim do dia, as mulheres portuguesas saem do local sem um tostão no bolso, já que os homens que recorrem a esse tipo de serviços começam a preferir as mais novas..."
Pois é. Trabalhar com estas condições é altamente desmotivador e assim de repente não vislumbro forma de dar a volta à situação. Se por um lado havíamos de dar primazia ao produto nacional, por outro há que conseguir discernir quando esse produto já ultrapassou em muito o prazo de validade.
Custa escrever isto, mas não há que escamotear:
- as 'pêgas' de Albergaria-a-Velha pensam que são como o vinho do Porto, mas estão muito enganadas. Andam a tentar vender 'pernil de vitela', cozinhada em vinha d´alhos, quando toda a gente sabe que aquilo não passa de 'farrapo velho'. É que, para isto, um gajo prefere ficar em casa a comer um 'refogadozinho' doméstico e já nem se chateia mais.
Se por um lado o produto interno é precisamente aquele que funciona como que uma alavanca para impulsionar a nossa economia, por outro é extremamente chato estarmos a consumir produto interno bruto, quando ali 50 metros mais abaixo existe produto externo de fina qualidade.
É complicado e compreende-se perfeitamente que a 'trolharia' e o sector da camionagem prefira as 'leguminosas' mais frescas, os 'grelos' mais tenros e a cebola mais 'ralada'. Não podemos levá-los a mal, porque até o benemérito Carlos Castro, esse puro exemplo de cidadão 'casto' e honesto, defensor dos valores de cidadania e samaritano nas horas vagas, um verdadeiro camionista garanhão embora em versão mais requintada, tendo que optar entre os leitões de vinte e os colegas de cinquenta, preferia claramente a carne mais viçosa.
É a normal natureza das coisas e aquilo que as 'Velhas' devem fazer é organizar-se e assumir que há de facto uma concorrência mais apelativa que veio para ficar (mais concretamente, para ficar 50 metros mais ao lado).
As 'Velhas' devem enfrentar as suas PUTAtivas rivais sem rodeios de espécie alguma e tentar reverter o negócio a seu favor, por exemplo melhorando a prestação de serviços, criando promoções, oferecendo brindes, rodando um porco no espeto na berma da estrada, etc., etc., etc... se o porco no espeto 'funciona' tão bem entre os 'romeiros' da política, porque razão não há-de ser igual no seio das 'rameiras'? O conceito é o mesmo: trata-se basicamente de chamar 'gente'.
Porém, nestas situações, nada melhor que escutar as sábias palavras de um cidadão popular que calhou passar por ali naquele exacto momento (como aqui foi dito em tempos, há sempre um indivíduo popular disponível para comentar a actualidade e então nas 'ramalhas' a dificuldade é escolhê-los, tantos são os que se movimentam por esses locais de pecado). Contudo, depois de interpretar melhor a noticia (às vezes é complicado perceber a elaboração textual de alguns jornalistas), constatei que afinal é uma popular. Ainda melhor, porque assistir a cenas de mulheres - alegadamente 'sérias' - que criticam mulheres - presumivelmente 'não sérias' - é do melhor que existe neste mundo:
"Isto é uma pouca-vergonha" (reparem que sempre que um/uma popular usa da palavra, nas rádios, televisões ou jornais, inicia sempre o diálogo da mesma forma). "Passo muitas vezes a pé com a minha neta, que tem 8 anos, e vejo-as sempre semi-nuas (portanto, a existência da neta no corpo desta noticia é totalmente irrelevante, porque quem olha para as 'pêgas' é a avó). "Se elas estão de saias, vê-se tudo, porque muitas nem usam cuecas" (lá está, a neta se calhar vai descansada com os 'headphones' metidos nos ouvidos, a trotear uma qualquer música do Bruno Mars, e nem liga patavina às 'pêgas' que por ali labutam, mas a avó... NÃO, a avó tinha que ir espreitar senão nem conseguia dormir).
"Há pessoas que passam aqui para ir a Fátima a pé e isto dá mesmo muito mau aspecto" (esta passagem, então, é soberba. Pessoas que passam por ali para ir à padaria; pessoas que passam por ali para ir apanhar caruma para acender o fogareiro; ou até mesmo pessoas que passam por ali para ir comprar melões aos vendedores ambulantes da EN1, não há problema.
Mas se passam pessoas rumo a Fátima é o cabo dos trabalhos!!!! ...é que isto de cumprir penitência é para ser levado a sério e o jejum a que estes devotos se prestaram inclui, não só a carne de porco, como igualmente a 'carne-para-canhão').
Mas (nesta coisa de 'ir' às meninas há sempre um 'mas'), ficámos sem saber a qual do género de prostitutas se referia a indignada avó. Quem são afinal as "desavergonhadas"? As 'novas'? Ou as 'velhas'? As portuguesas ou as de leste? Aqui fica o esclarecimento:
"Estas senhoras que estão aqui há muitos anos, pelo menos andam sempre com o corpo tapado."
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!!!!!
Assim está melhor!!!!
Temos uma avó patriota: - prostitutas sim, desde que de corpo tapado e nascidas no território. E se as 'pêgas' forem mesmo das 'nossas' - lusas ou em último caso luso-descendentes, ou em casos extremos 'pêgas' ultramarinas - a idade da neta que passa por ali todos os dias pela mão da avó é totalmente irrelevante e a jornalista (Diana C.) que escreveu esta peça não voltará a usar a identidade da neta em vão, só para dar uma de 'moura guedes' de pasquim regional, tentando transformar uma reportagem banal numa coisa realmente chocante. Para melhorar a 'cena' faltou apenas uma imagem a ilustrar a veracidade acerca da alegação das cuecas... ou falta delas!
Noutras estradas nacionais, nomeadamente na EN125, é assim que as reportagens se fazem, ou seja com galerias fotográficas e 'gifs' animados. Foi pena. Perdeu-se um verdadeiro 'furo'... jornalístico!
E muita sorte tem a avó, porque se em vez de Albergaria-a-Velha se tratasse de Albergaria-dos-Doze, à avó ainda lhe dava qualquer coisinha, assim que visse doze de uma vez a penetrarem nos domínios privados da 'desavergonhagem'.
Vamos agora escutar a outra parte da contenda, as 'pêgas' 'novas' (tradução de romeno para português já efectuada):
"Por mim elas podem trabalhar aqui. Eu não tenho culpa que algumas tenham já 60 anos e que ninguém queira nada com elas. Deviam era estar em casa a tomar conta dos netos..."
Ora aí está a contra-resposta. Factos são factos. Misturar 'velha' escola com 'novas' tecnologias dá sempre chatice. Pode alegar-se que a 'velha' escola bate as 'novas' tecnologias pela experiência, mas hoje em dia aquilo que a malta pretende é resolver as coisas em pouco tempo, com um simples 'click', e não ter que andar a 'pular' cercas antigas, correndo o risco de contrair alguma doença venérea em 'arame farpado' daquele bastante enferrujado pelo passar do tempo. A erosão conta muito nestas coisas.
Lamenta-se apenas que os netos e netas das envolvidas tenham sido novamente chamados à liça, sem que nada tenham a ver com o assunto. É uma 'moda' muito comum no jornalismo 'tuga'. Triste.
Chama-se agora a especial atenção para o sublime fecho da reportagem:
"...as clássicas prostitutas de Albergaria-a-Velha asseguram que vão fazer justiça pelas próprias mãos..."
Chamar-lhes 'clássicas' é de facto uma forma subtil de não apelidá-las de 'velhas'. Aqui esteve bem a jornalista. Resta saber se as 'clássicas' portuguesas irão exercer a justiça sobre a 'arquitectura contemporânea' romena de forma 'manual' (a reportagem leva a querer que sim) ou se vão apostar na via 'oral', gesto técnico que também costuma ter bastante êxito. Aguardemos pois as cenas dos próximos capítulos... numa Estrada Nacional perto de si... ali mais ou menos entre as duas albergarias: a 'Nova' e a 'Velha'.