Esta expressão é um clássico intemporal!
"Fugir p´ra França" é igual ao "sonho americano" dos mexicanos, só que na versão 'tuga'. A única diferença é que - ao contrário dos mexicanos quando entram nos EUA - os 'tugas' quando entram em França não ficam presos em arame farpado.
Desde tempos remotos que o português típico sempre teve o ensejo de "fugir p´ra França."
Reparem no verbo utilizado: "fugir".
O português não "muda", não "viaja" e não "tenta a sorte" em França.
Português, digno desse título, "foge".
Ora bem, para "fugir" tem que haver - necessariamente - alguém que nos persiga, senão perde toda a piada. Antigamente, "fugia-se" do fascismo. Depois, passou-se a "fugir" das obras de cá para as obras de lá, da limpeza das retretes de cá para a limpeza das retretes de lá e dos Escudos de cá para os Francos de lá. O problema era quando o outro Franco, o de Espanha, se atravessava no caminho e os "tugas" já não chegavam ao hexágono gaulês.
Mas também "foge-se p´ra França" por outros motivos: amorosos!!!
Isto não tem nada a ver com os 'gays', pois esses, durante muito tempo, também "fugiam"... só que era para a Holanda. Não. Aqui tratam-se de casais heterossexuais (que tal como o nome indica, são os casais que praticam sexo mais do que uma vez por dia).
Vários são os casos de jovens casais cuja união é mal vista pelos progenitores de cada um dos lados da estirpe. Uns, porque o genro é muito "bêbedo" e não tem emprego fixo. Outros, porque a nora é uma "badalhoca" que "rodou" com grande parte dos 'machos' da freguesia. Para quem conhece, é o chamado 'bacalhau-com-todos'.
Outros, porque a família do genro não tem grandes propriedades, nem riquezas que se vejam a olho nu. E ainda outros, porque a família da nora não vota PSD e pior ainda, até "desconfia-se" que são comunistas. Realmente, com todos estes antecedentes, a felicidade do jovem casal está logo irremediavelmente condenada à nascença.
Isto era mais comum no tempo antigo, mas por incrível que pareça, ainda subsistem pequenos casos do género.
E qual era, nesse caso, a melhor solução para que o romance do jovem casal chegasse a bom 'porto'? Fácil! "Fugir p´ra França!!!" ...onde poderiam viver felizes para sempre. E mesmo que o ponto máximo para onde o casal tenha alguma vez "fugido" tivessem sido as festas de Frossos, a solução passava unicamente por aí, ou seja "fugir p´ra França!!" E não valia a pena ninguém contrariar os 'pombinhos', pois um deles tem um primo na França que diz que lá "vive-se muito bem", ganha-se "muito dinheiro", há "3 tv´s em casa", o céu é muito mais azul que o céu de Portugal e até a luz do Sol é mais saudável e brilhante que a luz do sol português.
"Fugir p´ra França" era como que um grito de revolta. Era a emancipação da pessoa. A chegada ao estado adulto. Depois da primeira masturbação, conseguir "fugir p´ra França" era o patamar seguinte da independência pessoal. A "fuga" rebelde, para bem longe do domínio paternal.
Lembram-se do filme "Fuga para a Vitória", com Michael Caine, Sylvester Stallone, Osvaldo Ardiles e Pelé? É um grande filme. "A fuga para a França" é quase a mesma coisa só que, em vez de futebol, trata-se de triatlo, pois é preciso correr muito, pedalar ainda mais e até nadar para lá chegar, se preciso for.
Uma vez chegados aos Pirinéus, se calhar, umas noções de escalada também podem ser importantes.
Os próprios actores também não são bem os mesmos. Em vez de um Caine, temos um "Zé Carlos da Dorinda" e em vez de um Stallone, temos um "Manel´Tónio do Largo". Já as companheiras que "fogem" com eles "p´ra França" costumam ter nomes sugestivos, tais como a "Filha da Aurora", a "Neta da Chica dos Vasos" e a "Mariazita do Cabriteiro". De facto, com apelidos destes, o melhor é mesmo "fugir", não importando que seja "p´ra França", ou para outro 'El Dorado' qualquer.
II PARTE
- "FRANÇA"
E porquê, "França"?
Porque não, Croácia, Bulgária, Albânia, Senegal ou Deserto de Góbi??? Será que ninguém "foge" para estes destinos porque os mesmos ficam longe? Nesse caso, temos a Extremadura espanhola, a Andaluzia, Gibraltar, Açores ou Madeira, que são 'países' que ficam muito mais à 'mão'.
"França" é daquelas regiões que não dá jeito nenhum "fugir p´ra lá", porque tem que atravessar-se, obrigatoriamente, toda a Meseta espanhola. Uff... uma pessoa, se sobreviver, chega a "França" toda estoirada e depois quem é que ainda vai fazer o jantar? A companheira, claro está!!!
Portanto, o jovem fermelanense resgatou a companheira de casa dos pais e "fugiu" com a moça "p´ra França" para que ela passe a desempenhar funções de empregada doméstica privativa. Sem dúvida o sonho de qualquer moçoila fermelanense tornado realidade.
E assim que o jovem descobrir que em "França" também existem casas de putas ...upa...upa... no fim do acto sexual, na vez de sair para ir fumar um cigarro, vai para a varanda entoar a Marselhesa.
Pessoalmente, acho que a escolha "França" deve-se ao facto de ser um país 'ultra-apaneleirado' e nós os 'tugas' gostamos muito dessas merdas. Falamos mal do Goucha, do Baião e do Malato, mas não perdemos um único dos seus 'programitas', só pelo prazer de degustar aqueles tiques sofisticados que eles expelem a todo o instante. Dizem que em "França" há muitos apresentadores parecidos com os nossos. Eu não contraponho. Nem um pouco. Mas acho que os nossos é que são parecidos com os de "França".
E depois - mantendo-me no tema 'emigrados em França e suas paneleirices' - não há dinheiro que pague o prazer que é escutar os nossos "fugidiços", quando regressam à pátria, falando-nos das suas aventuras com aquele sotaque - não menos 'apaneleirado' - que foram apanhando durante os vários anos de 'exilio', contando-nos que se instalaram em Chambéry ('Xambêrrrrrryyyy' em linguagem emigrante), na província da 'Sabóia-de-Baixo' ('Sábuáaaa' em linguagem emigrante), tomam café aos domingos virados para a Fontaine des Éléphants ('Fonténedêzêlêfantês') e quando têm um 'tempinho' livre vão passear até Albertville ('Vila do Sr. Alberto') e Saint-Jean-de-Maurienne (São-João-da-Mauritânia'). Uma vida de luxo, portanto.
III PARTE
- "(APÓS A FUGA) O REGRESSO!"
E as roupas que eles trazem? Meu Deus, as roupas!!! Quando daqui "fugiram" levavam uma camiseta de cavas da marca 'Desportolândia' (ele) e uma 'blusita' comprada na feira dos '28' (ela). Quando regressam, anos mais tarde, trazem uma 'toilette' de fazer inveja a qualquer 'mademoiselle' citadina das margens do Antuã. Os 'écharpes' adquiridos*1 nas melhores 'boutiques' dos 'Champs-Élysées', os 'foulards' coloridos caídos sobre os ombros, as berrantes 'blouses', as sacolas da 'Louis Vuitton' e o aroma a 'Cacharel' que eles 'destilam' em cada esquina, praça, largo e café onde se costumam grudar inoportunamente. Qualquer 'saloio de aldeia', ao vê-los chegar, ostentando as "marcas do mundo evoluído", fica instantaneamente cheio de raiva e com vontade súbita de "fugir".
"Fugir" dali para fora!!!
Não se pense que este tipo de gente - que um dia "fugiu p´ra França" e depois regressou pela porta-grande*2 - encontra-se em vias de extinção. Pelo contrário. Eles continuam por aí, quanto mais não seja durante o mês de Agosto, espalhando e 'respalhando' o seu charme inconfundível. Neste Verão, cruzei-me com alguns e admito que no fundo, lá bem no fundo, mesmo no fundo do fundo, tenho ciúmes deles. Não pela vaidade nas roupas, muito menos pelos cheiros exóticos e menos ainda pela pronúncia esquisita, embora estilosa, principalmente quando insultam os próprios filhos, de forma tão didáctica: "ferme la bouche et restes silencieux petit fils de pute, sinon je t'envoie à nouveau pour la con de ta mére!!!"*3
Tenho ciúmes, sim, porque foram capazes de "fugir" ...e "fugir" é daqueles comportamentos em que os portugueses sempre foram especialistas. "Fugir" de casa... "fugir" à tropa... "fugir" aos impostos... "fugir" à polícia... "fugir" ao trabalho... "fugir" às obrigações... "fugir" à verdade... "fugir"... "fugir"... "fugir"... um comportamento tão nobre, tão altivo, tão distinto ...enfim... um comportamento tão 'tuga'... tão nosso... ahhhhhhh (suspiro melancólico) como eu gostava de saber "fugir" assim!!!
*1 - no meu estudo constatei que o emigrante, quando faz compras, não "compra". O emigrante "adquire". Que é bem mais chique...
*2 - não obstante, às vezes acontece regressar pela porta-do-cavalo... nem todos aqueles que "fogem" têm a mesma sorte...
*3 - dizem que o melhor vernáculo é aquele que é dito em francês. Se Carlos Queiroz tivesse insultado a mãe de Luís Horta em linguagem gaulesa, certamente não seria castigado...