Cheguei cedo. Era quase meio-dia quando tirei 'ticket'. Faço sempre questão de chegar cedo. O meu 'ticket' era o número 102. Olhei para o mostrador. Estava parado no 52. Pensei para os meus 'botões': “porreiro! Vai dar tempo para criar uma crónica no meu bloco de notas enquanto aguardo que me atendam.” Peço à segurança para chamar o amigo Fernando Mendonça e ela liga directamente ao seu gabinete enquanto pensa: “este farrapo humano (eu estava a pingar de suor) deve estar a dar 'tanga'.” Mas eis que Fernando Mendonça aceita o meu nome e pede que aguarde. A senhora agente da autoridade mostra-se surpreendida. Reparem na minha arrogância; não é o amigo Fernando que me autoriza a subir. Nada disso. Ele é que tem de descer ao rés-do-chão se pretende ter o prazer da minha companhia. Acabei por subir meia-escada e ao mesmo tempo que lhe aperto a mão, ele repreende-me severamente: “podia ter avisado que eu tirava-lhe o 'ticket' mais cedo.” Mas eu não gosto de abusar dos meus contactos privilegiados no seio do aparelho governativo central. É quase o mesmo que ser amigo do porteiro do Estádio da Luz e ter a possibilidade de me instalar comodamente dos camarotes 'premium' a 'papar' lagosta e caviar, mas continuar a preferir petiscar tremoços na zona do peão.

Outra questão é que, caso aceitasse o favor que o amigo Fernando estava disposto a prestar – correndo ele até alguns riscos, pois esta coisa de retirar um 'ticket' cor-de-rosa do interior de uma máquina em forma de concha-de-caracol requer alguma ciência – depois eu ficaria em divida para com ele, devendo-lhe um favor em dia e horário a designar. Já estou a imaginar o amigo Fernando, nas próximas festas do São Miguel de Fermelã, a pedir-me para lhe arranjar o melhor lugar possível de entre aqueles que transportam o palio do Senhor Prior. Não quero estar dependente dessas situações de pressão, até porque se há lugar bastante disputado (a seguir às listas autárquicas) é precisamente o lugar à direita do pároco (esquerda, para quem 'pega' o padre de frente).
O palio do padre, que de resto, faz lembrar aqueles jogos escolares das profissões em que as crianças devem redigir uma composição subordinada ao tema “o que é que queres ser quando fores grande?” É que por baixo do palio do padre existe de tudo: serralheiros, artesãos, agricultores, cantoneiros, mirones, bandidos e proxenetas. Isto é real e está documentado em foto, bastando consultar crónicas antigas neste blogue.
Voltando à fila do Governo Civil, as conversas que lá têm lugar são imperdíveis e ricas em conteúdo. Fernando Mendonça alertou-me que eu não tinha necessidade de passar por esta demora, mas eu retorqui: “caro amigo, o que se ganhava em termos de tempo, perdia-se em matéria noticiosa do quotidiano de cada utente.”
p.e.:
-uma senhora avisa o marido que quando chegar a casa vai descongelar 'chilli' para almoço. O marido, discorda: “não é preciso. Ainda sobrou muito leitão dos 3 que assámos!”
Eu, na minha santa ignorância, desconhecia o que era um 'chilli' e muito menos que tal alimento dava para congelar. A única coisa que conhecia, assim mais ou menos aproximado, eram os cumes gelados do Chile. Estamos sempre a aprender...
Agora, 3 leitões??? São 13 horas exactas, estou faminto e ainda tenho que aturar gente que consome 3 leitões mais rapidamente que o tempo que demoro a estrelar 2 ovos...
Entretanto, desce o amigo Afonso Candal. Não sabia que também trabalhava por cá. Deve ir almoçar. Ao mesmo tempo que ele abandona o edifício, entra uma senhora adornada com uma bela tatuagem na zona superior de um decote bastante generoso. Nunca mais me lembrei do Dr. Candal. Nem sei se ele vestia calções e chinelos-de-dedo ou se trajava corsários e sandália romana. Penso que o ambiente visual do Governo Civil ficou a ganhar com esta troca momentânea. Pelo menos durante o resto do tempo em que eu permanecer por aqui.
Uns minutos mais tarde, entram alguns agentes da autoridade. Entram, observam, dão meia-volta e 'piram-se'. Quase que me apeteceu dizer: “o decote é bonito, não é? Pois... mas a menos que o vosso 'ticket' seja de número inferior ao meu, eu vi-O primeiro!!”
Mais tarde, dá-se o GRANDE momento. José Mota e Fernando Mendonça (não necessariamente por esta ordem de preferência) descem a escada governativa e vão almoçar. O amigo Fernando deseja-me boa estadia e eu desejo-lhe bom repasto. Ele volta a insistir na mesma 'tecla': “deveria ter-me ligado. Amigo do Governo Civil não espera mais que 10 minutos.”
Mais uma vez agradeço mas recuso a 'ajuda': “caro amigo, eu era incapaz de usar a sua amizade para pedir qualquer favor que fosse. Não sou desses, nem tenho jeito.”
No entanto, agradeci-lhe informalmente o facto de me ter emprestado a 'via-verde' para poder estacionar no parque privativo do Governo Civil. Sem pagar, à 'sombrinha' e logo atrás das 'bombas' de serviço. Não me julguem mal, caros leitores anónimos. Não pedi nenhum favor para mim. Apenas pedi para o carro. Nestas coisas de estacionar a 'máquina', aí sim, há que manter, SEMPRE, bons contactos.
Acabei por ser atendido às 14 horas. Estive por lá praticamente 2 horas ¼. Até que foi giro... principalmente, quando um utente enfurecido decidiu exclamar: “os Governos Civis deviam acabar!”. Por mim é igual ao 'litro'. Acabem ou não. Na Loja do Cidadão a espera é a mesma, mas se tiverem que acabar com alguma coisa, que seja com os Governos e NUNCA com os decotes...
O dia estava a correr-me definitivamente bem e ainda melhorou, quando um utente bravio se lançou à minha frente, questionando a funcionária sobre qual o motivo dos documentos dele não lhe permitirem entrar nos EUA. Eu, que já pouco tinha a perder, lancei no ar a hipótese: “certamente, porque você é terrorista!” Fez-se silêncio no gabinete. Ninguém respondeu e a minha manhã terminou em beleza...
...qualquer eventualidade, estou certo que Fernando Mendonça me safaria as costas, se bem que eu não seja desses gajos que pedem favores!!!