O que é uma fita delimitadora de individualidade VIP?
Tal como existem as fitas delimitadoras de zona do crime aquando da ocorrência de um sinistro, existem as fitas delimitadoras de individualidade VIP aquando da ocorrência de uma cerimónia formal, que pode ser uma cerimónia do tipo cultural, desportiva, política ou qualquer outra 'estaparfudice' do género. Tanto um tipo de fita como a outra, servem basicamente para delimitar zonas que não podem de forma alguma ser ultrapassadas pelos civis. A única diferença é que a primeira fita costuma ter a sigla da polícia, enquanto a dos VIP´s não passa de uma fita de cor (a)berrante. No entanto, essas fitas podem ser puladas por quem de direito. A fita delimitadora de zona do crime pode ser transposta exclusivamente por agentes da autoridade e a fita delimitadora de individualidade VIP só pode ser galgada por agentes com 'pedigree' social. Portanto, nem eu, nem os excelentíssimos anónimos leitores deste blogue, incluíndo todos os 'mentecaptos' e 'emplastros' em geral, nem tão pouco qualquer 'Pires da Póvoa' sem estatuto, poderão em caso algum ousar pular para o interior dessa área reservada aos 'pedigreiros' da nossa sociedade, sob pena de sermos levados em braços pelos 'stewards' ou pelo Hilário 'de' Matos, que é praticamente um 'steward' no que a recinto público local diz respeito.
Caso ainda não saibam a que área é que me estou a referir, especifico que se trata daquela 'áreazinha' onde estão montadas umas tendas piramidais geralmente em cor branca, que é a cor escolhida para fazer realçar a 'pureza' dos agentes que lá se encontram enfiados. Mais informo, que nessas áreas, é usual haver ventilação apropriada conforme a estação do ano: ventinho no Verão e aquecimento quase central no Inverno, pois no Inverno eles reunem-se no 'centro' da tenda bem juntinhos. Também existem mesas com 'comes e bebes', que em regra geral costumam ser constituídas por sumo de laranja natural e dúzias de gamelos de fina porcelana com bolachinhas de creme e chocolate do tamanho de uma moeda de 50 cêntimos. Para terminar, essas zonas nobres ainda costumam ser equipadas com aqueles WC´s portáteis em PVC, enquanto o comum mortal que assiste à cerimónia do lado de fora terá que satisfazer as suas necessidades na regueira mais próxima, se assim se proporcionar. Para terminar de vez com esta introdução, até porque ali atrás ainda não era para terminar, falta referir que os serventes que repõem as iguarias nas mesas quando estas começam a escassear, são formados por gente de baixo estrato social que insultam as individualidades VIP em voz baixa quando estas reclamam que o sumo está muito azedo, ou que o chocolate das bolachinhas está a ficar derretido com o calor, ou ainda que o creme 'paté' de barrar as tostas tem mosca. Só não afirmo que os serventes cospem nas bolachinhas antes de as colocarem na mesa à disposição das individualidades VIP porque nunca vi... mas desconfio! Este é, em traços gerais, um esboço mais ou menos aproximado de uma zona nobre de cerimónia formal, ou se preferirem, de uma área que está contida por uma fita delimitadora de individualidade VIP.
Durante um destes últimos fins de semana fui achado de forma totalmente fortuíta numa cerimónia deste calibre, onde de resto esteve presente o Sr. Adjunto Principal do Exmo. Sr. Governador Civil de Aveiro, Prof. Fernando Mendonça. A experiência que aqui conto nas linhas seguintes é extraordinariamente enriquecedora, pois pela primeira vez na minha vida fui autorizado a frequentar o lado de lá de uma zona delimitada por fita de individualidade VIP.

Fui convidado pelo próprio Fernando Mendonça 'himself' a transpor a fita de todos os medos. Devo admitir sem falsas modéstias que à primeira sensação senti-me a entrar num mundo completamente à parte daquilo que conhecia até então e posso escrever sem contemplação que nunca fui tão observado em toda a minha - ainda curta e medíocre - existência. O amigo Mendonça não se comedia a esforços na vã tentativa de me colocar à vontade, mas mesmo ele também demonstrava sinais evidentes de nervoso miudinho, ao ponto de quase ter destruído a máquina do café na sua missão inglória de me servir a 'bica' de forma inteiramente personalizada. Espero que Fernando Mendonça não venha a ter problemas futuros pelo facto de ter metido quase à força um ilustre desconhecido em plena zona VIP. Nem gravata eu tinha, quanto mais. E estava de sapatilhas, imaginem só! Pior, muito pior, não trazia óculos escuros e toda a gente sabe que uma das regras máximas de etiqueta quando se faz parte de uma zona delimitada por fita de individualidade VIP é estar munido de óculos protectores de raios UV, pois o brilho dos presentes é tão intenso que pode danificar gravemente as retinas dos mais sensíveis.
A restante composição daquela tenda ora mirava Fernando Mendonça, ora mirava a minha pessoa. Eu sentia que a minha presença ali era considerado um verdadeiro atentado à política dos bons costumes, tão em voga na nossa ALTA sociedade. O meu metro e setenta e nove não passava de um mero peão de tabuleiro de xadrez, se comparado com as torres, bispos, duques e cavalos que por ali deambulavam. Eu, estar ali rodeado pelo 'glamour' circundante e pelo elevado prestígio social, era praticamente o mesmo que a Ana Malhoa nua no balneário de uma equipa de futebol, ou seja, comiam-me com os olhos e diziam cada um para dentro de si: -"que desperdício!" A minha presença ali era tão necessária quanto a do Sócrates no pavilhão de Mafra ou a do Manuel Alegre na festa de aniversário do Mário Soares.
Nisto, o amigo Mendonça ofereceu-me uma bolachinha e foi ali que começou o desastre. Como iria saborear a bolacha sendo eu um tipo que não gosto de ser observado enquanto me alimento? É que eu nem sequer sabia se podia usar as mãos para pegar na bolacha ou se haveria por ali algum artefacto pousado em local estratégico que servisse para levar a rodela à boca. Foi nesse momento de pânico que surgiu na tenda uma qualquer alta individualidade que não conhecia nem nunca tinha ouvido falar e as atenções dissiparam-se sobre o meu escalpo. A bolacha foi engolida duma vez e o café ingerido numa única e furtiva golfada.
Reparei que o amigo Fernando, apesar de todas as solicitações em redor - talvez de pessoas a quererem saber se José Mota já havia regressado do Brasil - tentava por todas as formas não me abandonar à sorte, até porque se eu me suicidasse por motivos de 'bullying-VIP', ele teria que carregar esse fardo na consciência até ao fim do seu mandato no Governo Civil. Aqui lhe presto a minha sentida homenagem, pois tenho perfeita noção que ele próprio passou por tresloucado ao convidar para a tenda VIP um mero cidadão popular, ainda por cima anónimo a dobrar, ou seja, anónimo por ser mesmo anónimo e anónimo por não fazer parte das socialites. O que até terá as suas vantagens pois se não sou conhecido, então os meus 'podres' também não e poderei um dia, quem sabe, vir a fazer carreira neste tipo de eventos. Pelo menos ninguém poderá em tempo algum saber se a minha moradia foi construída numa rua que entretanto se mexeu.
Por falar em indivíduos ditos populares, uma das questões que coloquei ao Sr. Adjunto foi esta: -"caro amigo, sei que os cidadãos populares não devem jamais ultrapassar esta barreira feita de fita delimitadora de individualidade VIP, mas e o contrário? Poderão as individualidades VIP cruzar a fita para o meio dos populares?"
A minha ignorância provocou um leve esgar jocoso em Fernando Mendonça, mas ele não se desfez e respondeu com simpatia: -"caro amigo, eu já estive aí desse lado ainda há pouco e senti-me bastante bem. Não fui agredido, nem insultado."
É de facto notável a capacidade camaleónica deste homem. Um Homem que consegue estar em dois lados distintos da fita e mesmo assim manter a sua personalidade é merecedor de um louvor por parte deste blogue. Digamos que Mendonça é o 'Neo' que saltita com um 'à vontade' impressionante entre a realidade e a virtualidade da 'Matrix', enquanto eu não passo de um 'Mr. Smith', preso que estou à minha dimensão e apenas conseguirei penetrar noutra dimensão se tiver a arte necessária para corromper alguém.
A forma terna, polida, cuidadosa e politicamente correcta como ele diz "aí desse lado" faz-nos sentir importantes e leva-nos a descobrir que afinal do nosso lado da fita o mundo também é redondo, o mar azul, a atmosfera constituída maioritariamente por azoto e que o Benfica também vai em primeiro do lado de "cá". Fernando Mendonça ajudou-me a ultrapassar esta fobia a fitas delimitadoras de individualidade VIP e mesmo que eu não venha a votar nele nas próximas eleições, devo-lhe um café e uma bolachinha no "meu" mundo, no lado de "cá" da fita, no mundo dos populares. Ele só terá que transpor a fita para o meu lado.
Escusado será dizer que a partir deste dia fiquei muito mais à vontade no que a cruzar fitas delimitadoras de individualidade VIP diz respeito. No próximo acto ou cerimónia solene vão ter que levar comigo, chamem-se os cabeças de cartaz Fernando Mendonça, Kofi Annan, Papa Bento XVI, Al Gore ou José Eduardo Matos. Se bem que este último, ultrapassar a fita dele vai ser tarefa dura de roer porque acho que agora durante 60 dias não nos podemos aproximar deles ou sequer falar mal. Bom, apesar dos 'capangas', não custa tentar e o que interessa mesmo é ter ficado fã desta modalidade e agora compreendo melhor todos aqueles que fazem desta prática a sua forma de estar. Mesmo aqueles e aquelas que pensam ser VIP´s mas não são.