Em tempos imemoriais, os Reis dos 7 Estados que compunham o Grande Reino de Estarreja, prepararam um Farnel que deveria ser consumido por todos, em hora e local a designar. O Farnel simbolizava o espírito de união entre os 7 Reis, que por essa altura não se dividiam em clãs, como agora. No tempo da Estarreja-Média havia um só propósito, que era defender aguerridamente o Grande Reino contra a tirania dos Senhores das Águas do Reino de Allavarium, nomeadamente o seu líder RibauSauron. Estava escrito nas entrelinhas do destino que assim que o Farnel fosse deglutido, os 7 Reis ficariam donos e possuidores de uma força tal, que nem mesmo o infame e retesado RibauSauron, os poderia destronar.
Para esse Farnel, o Estado de FineLand contribuiu com o vinho verde, enquanto Canellae entrou com a alheira do Emidius, um reputado gastrónomo dessa Era, antepassado da actual Adega. Par-dilhó forneceu o Pão Nosso, Avanqua as azeitonas e Vaeeiros trouxe a semente de Sobreiro, que seria enterrada no exacto local onde seria realizada a comezaina, para desse modo fazer prolongar no tempo a lembrança desse encontro, até aos dias de hoje. Para completar a roda dos alimentos falta mencionar Bedaui, que trouxe cavacas de Sta Bárbara e Sal-a-reu - nesse tempo capital do Grande Reino de Estarreja - que obviamente forneceu os condimentos necessários à boa cozedura. Digno de realce o facto do Rei de Par-dilhó não se ter feito representar na degustação do Farnel, pois para além de ser muito desconfiado, governava o seu Estado a tempo inteiro, tornando impossível a sua presença. Em seu lugar enviou um fiel sabujo de 4 patas que calcorreou montanhas e vales sempre com o Pão Nosso bem preso nas mandíbulas, até chegar ao local marcado.
O Farnel foi selvaticamente ingerido pelos convivas, a semente da Paz foi enterrada, o Sobreiro cresceu, os Reis tornaram-se mais fortes, RibauSauron foi derrotado, Estarreja continuava a deter os direitos sobre a água e a Paz reinou durante séculos. Séculos daqueles de 100 anos, cada um...
Mas...
A História guardava uma terrível reviravolta...
RibauSauron, antes de morrer no exílio de uma ilha deserta no meio da Ria, tratou de deixar descendência, e pior que isso, escondeu em segredo um outro Farnel muito mais poderoso, que ao ser encontrado iria trazer de volta o terror e a desconcórdia entre os povos da Era Moderna.
Séculos depois, Estarreja já não era governada por Reis, mas por Presidentes de Junta. Cada um oriundo de famílias politicas diferentes e com interesses e ambições distintas entre si. Uns com ideias próprias e outros que não passavam de meros capatazes do líder máximo concelhio, Lorde Eduardo de Matos. Era o Lorde de Matos que as forças do mal, personificadas pelo Eminente Ribau Esteves, mantinham debaixo de olho. Conseguindo conquistar o Lorde de Matos para a sua causa, as forças do mal iriam subjugar Estarreja através do controlo das águas da rede pública e seu intolerável encarecimento. Ribau Esteves encontrava-se imbuído pelo espírito pérfido do seu antepassado RibauSauron e só havia uma forma de o destruir para sempre: encontrar o Farnel escondido e ingeri-lo à sombra do sobreiro centenário de Veiros, no mesmo local onde os Reis antigos haviam realizado o festim, uns séculos antes.
Os capachos do Lorde de Matos, apercebendo-se que o seu líder estava cada vez mais corrompido pelas boas falas e pretensões de Ribau Esteves, aos poucos conduzindo Estarreja até às escarpas dos abismos terrestres, trataram de organizar uma Irmandade com objectivo de encontrar o Farnel mágico e destrui-lo pela via do estômago. 7 bravos guerreiros foram escolhidos: 1 Elfo fêmea chamada Rosa Simão, 1 Gnomo do tamanho de um camundongo conhecido por Carlos Figueira, 3 Homens vereadores representados por João Alegria, Abílio Silveira e Diamantino Sabina, 1 Orc Adolfo Vidal e 1 Hobbit, simpáticas criaturas conhecidas por tomarem (em apenas 24 horas) 2 pequenos almoços, 1 almoço, 1 lanche, um aperitivo, um jantar e uma ceia. Quem melhor para destruir um Farnel em segundos que o Hobbit Hilário de Matos? Eram eles a Irmandade do Farnel e eram eles os responsáveis por libertar Estarreja das amarras maléficas das forças das Trevas. Uma vez destruídos Ribau Esteves e Lorde de Matos, um dos 7 componentes da Irmandade iria assumir a governação autárquica. Ficou instituído que quem conseguisse comer a maior porção do Farnel, assumiria desde logo as rédeas do Poder. O Hobbit Hilário de Matos e o Homem Diamantino Sabina estavam, portanto, em vantagem, dadas as suas desenvolturas atléticas.
Mas a tarefa da Irmandade não se adivinhava fácil. Ribau Esteves, para além da angariação do Lorde de Matos, tinha também conseguido dominar os Presidentes das Câmaras de Aveiro, Murtosa, Albergaria, Oliveira do Bairro, Vagos, entre outras. Até mesmo o de Ovar estrebuchou no inicio, mas também acabou por lá cair nas teias da tirania. Como iria a Irmandade empreender a viagem pelo distrito em busca do Farnel, com tantos inimigos acantonados a cada esquina? A Grande Guerra da nossa Era estava lançada...
Desde o inicio da demanda que se sabia que a união da Irmandade estava condenada ao fracasso. O dia-a-dia periclitante enfrentando os mais diversos perigos, conjugado com a atracção mortal que cada um dos elementos da Irmandade sentia pela posse do poderoso Farnel, provocou a ruptura dos laços de amizade e fê-los seguir caminhos desavindos. O Gnomo camundongo Figueira não gostava do Hobbit Hilário, pois já o conhecia da direcção do Carnaval e sabia que ele só pensava em comer à custa dos outros. O Hobbit queria chegar a deputado, o deputado Orc Vidal queria chegar a vereador e os Homens vereadores queriam chegar a Presidente. No meio disto tudo a Elfo fêmea tentava manter o discernimento, mas mesmo ela sabia que tinha capacidade para mais do que apenas aturar os devaneios de tão indesejáveis companheiros de caminhada. O misticismo e a influência do Farnel estava a destrui-los aos poucos, pois o Hobbit Hilário era admirador das capacidades de ascensão do Homem Sabina, que por sua vez teria que afastar Silveira e Alegria para poder almejar a posse exclusiva do Farnel. Já o Orc Vidal tinha bem ciente que só chegaria a vereador se o Homem Sabina se apoderasse do Farnel antes de Silveira e Alegria. O futuro próspero de Estarreja estava nas mãos de uma aliança cada vez mais pervertida. Os jogos de interesse sobrepunham-se à união de esforços e o Lorde de Matos lavava daí as mãos, como tão bem sabia fazer. Estava lançada a confusão pela sucessão...
(...to be continued...)